
Passados algumas semanas sobre o fim da Semana Académica de Portalegre 2026, já é possível fazer um balanço com a distância necessária, não apenas do que correu bem, mas sobretudo do que esta edição revelou sobre a cidade que somos e aquela que podemos vir a ser.
Um evento feito da cidade para a cidade
A SAP’26 não foi apenas um evento académico. Foi, acima de tudo, um sinal claro de que Portalegre tem capacidade para se mobilizar, colaborar e construir algo com impacto coletivo quando existe ambição e alinhamento entre diferentes agentes.
Desde o início, houve uma intenção clara: fazer da Semana Académica um evento da cidade e para a cidade. E isso sentiu-se. Na cerimónia na Sé, nas atuações no NERPOR, na Queima das Fitas no Estádio — momentos que ultrapassaram o universo académico e envolveram famílias, munícipes e diferentes gerações.
Mais do que aumentar a dimensão do evento, procurámos aumentar a sua relevância. Tirar a SAP de uma lógica fechada e transformá-la num acontecimento com expressão urbana, com impacto na vida coletiva e com capacidade de mobilizar públicos distintos. Quando isso acontece, o evento cresce e a cidade cresce com ele.
Mais organização gera comportamento cívico
Outro sinal importante foi o comportamento dos estudantes. Ao contrário de relatos de anos anteriores, esta edição ficou marcada por civismo, responsabilidade e respeito. Isso não acontece por acaso. É o resultado de organização, planeamento e profissionalização. Quando se cria um contexto exigente e estruturado, a resposta tende a estar à altura.
Foi precisamente essa a condição do NERPOR para aceitar este desafio: não participar para repetir modelos, mas para elevar o nível. Reforçar a segurança, melhorar a operação, estruturar a organização e garantir que a Semana Académica pudesse ser vivida com entusiasmo, mas também com responsabilidade.
Este resultado deve-se a muitas pessoas e entidades. Aos fornecedores locais - que demonstraram a capacidade instalada no território - às equipas técnicas, ao staff e à equipa do NERPOR. À Câmara Municipal de Portalegre, pelo apoio logístico e por decisões com impacto direto, como no aluguer de um autocarro da CMP, a um preço simpático, contribuindo para a segurança do evento.
Mas importa também clarificar um ponto: faz sentido uma associação empresarial estar envolvida na organização de uma Semana Académica? A minha resposta é clara: faz todo o sentido.
Cultura também é desenvolvimento económico
O desenvolvimento de um território não se faz apenas de empresas. Faz-se de talento, cultura, ensino, identidade e capacidade de atrair e fixar pessoas. Uma cidade que não liga estes pontos está, inevitavelmente, a limitar o seu futuro.
Foi com essa visão que o NERPOR criou um departamento cultural e assumiu este desafio. Porque a cultura também é economia. Também gera movimento, cria ligação ao território e reforça identidade. E uma Semana Académica, quando bem pensada, é muito mais do que um conjunto de festas: é um momento de afirmação coletiva.
Ligação entre talento e empresas é fundamental
Há muito tempo que Portalegre vive com um problema estrutural: a distância entre o seu tecido empresarial e a sua comunidade estudantil. As empresas falam de falta de talento. Os jovens saem sem conhecer as oportunidades locais. E o resultado é conhecido: dificuldade em fixar pessoas.
Temos de mudar isso. Temos de criar mais pontos de encontro entre quem estuda, quem trabalha, quem investe e quem decide. A SAP’26 foi, à sua escala, um passo nesse sentido.
Mas este caminho exige também um maior envolvimento do tecido empresarial. Eventos desta natureza representam uma oportunidade estratégica para as empresas se posicionarem não só junto do público em geral — promovendo a sua marca, produtos e serviços — mas, sobretudo, junto daquele que será o seu público e força de trabalho no futuro. Estar presente é investir em notoriedade, proximidade e captação de talento.
Simultaneamente, esta participação permite às empresas integrarem um evento de maior dimensão e visibilidade, com impacto regional, beneficiando de um enquadramento institucional que reforça a sua projeção e credibilidade.
E não pode ficar por aqui. Se queremos consolidar este caminho, há um passo que tem de ser dado: o Instituto Politécnico de Portalegre e a Câmara Municipal devem assumir um papel mais ativo na organização da Semana Académica. Não apenas como apoiantes, mas como parte integrante de um modelo que já ultrapassou a dimensão exclusivamente académica.
A Associação Académica deve continuar a ser a alma do evento. Mas eventos com este impacto exigem corresponsabilização institucional.
Portalegre ganha quando trabalha em conjunto. A SAP’26 provou isso. Agora, o desafio é não recuar, é consolidar, melhorar e ampliar este modelo. Porque quando há ambição, compromisso e vontade de fazer bem, Portalegre consegue. E isso, para mim, é talvez o melhor balanço que se pode fazer.
Tiago Braga
Presidente do NERPOR